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22 de mar de 2011

Trajetórias I:

Histórico da Agroecologia no Instituto de Biologia/ Unicamp


A entrada e difusão da área de Agroecologia no Instituto de Biologia da Unicamp estão diretamente relacionadas com a minha história profissional. Dessa forma, o presente histórico representa parte do meu próprio histórico desde 1988 até o momento em que me aposentei, em 2005, e está redigido como tal, na forma biográfica.


Em busca de novos paradigmas

…E chegou um momento em minha carreira de pesquisadora e educadora em que percebi que a aplicação independente dos conhecimentos sobre controle biológico, manejo integrado de pragas, conservação do solo e demais disciplinas ligadas à agricultura não era suficiente para se desenhar um agroecossistema  produtivo e com alguma chance de ser sustentável.  Era necessário integrar os conhecimentos dessas diferentes áreas com os conhecimentos de ecologia de ecossistemas. Também era necessário contextualizar esses conhecimentos com base na ecologia humana e etnociências para melhor orientar a minha linha de pesquisa e ensino. Era urgente a formação de recursos humanos que pudessem atuar efetivamente e de maneira criativa no estudo de agroecossistemas e na concepção de propostas inovadoras de agroeceossistemas sustentáveis.

Encontrei nos textos de agroecologia de Altieri, de Gliessman e no texto mais extenso e analítico de Carroll, Vandermeer, e Rosset uma boa fundamentação tanto para o entendimento dos problemas ecológicos, sociais e econômicos relacionados com o modelo de agricultura e pecuária atuais, como para a necessidade de concepção de novos modelos de agroecossistemas, que garantissem uma interação harmônica e sustentável com um sistema sócio-econômico justo e culturalmente integrado em cada local.


A experiência de Berkeley, CA

Em 1988, como parte do grupo organizador do International Symposium on Evolutionary Ecology of Tropical Herbivores, em Campinas, convidei o Dr. Miguel Altieri, da Universidade da Califórnia, Berkeley, a participar nos debates sobre ecologia de pragas em agroecossistemas. Tive oportunidade de conhecê-lo pessoalmente. Esse encontro resultou em colaboração e na minha ida para Berkeley, como professora convidada, de Janeiro de 1990 a julho de 1991.  Durante esse periodo desenvolvi pesquisa sobre movimento de insetos em agroecossistemas com diferentes níveis de diversificação e interagi com muitos pesquisadores da então Division of Biological Control da Universidade de Berkeley (hoje extinta).


Implementação da disciplina de Agroecologia  na Unicamp

As idéias e discussões do período que passei em Berkeley, assim como a participação no Curso Internacional de Agroecologia, organizado pelo Consórcio Latino-Americano para Desenvolvimento Sustentável (CLADES), em Santiago do Chile , em 1992, levaram-me a propor a criação da disciplina de “Tópicos em Agroecologia”, junto ao programa de pós-graduação em Ecologia da Unicamp , que foi implementada em 1994. Essa disciplina teve grande repercussão junto a estudantes e profissionais de Campinas e região interessados em agroecologia.  Considero que o grande sucesso dessa disciplina deve-se ao fato de ter sido concebida como base para formação teórica e como plartaforma para interação de estudantes e docentes de diferentes áreas da Unicamp, tais como, sociologia, engenharia agrícola, economia, biologia e também estudantes de outras escolas, como Esalq e de profissionais de órgaos de pesquisa e extensão agrícola, como Embrapa, Instituto Agronômico,  DIRA  Campinas, e técnicos ligados organizações não-Governamentais, como AAO e ASPTA. Apesar das diferenças em bases teóricas dos estudantes, o ganho maior da disciplina para todos  foi a riqueza das discussões e o desafio da elaboração de projetos de pesquisa na área de agroecologia. Muitos dos projetos elaborados e discutidos na disciplina se converteram em projetos de teses de estudantes, tanto na Unicamp, como na Esalq ou em projetos de pesquisa de outros profissionais.

A colaboração com a AAO permitiu o contato com os agricultures que praticavam ou se mostravam mais abertos a implementação de práticas sustentáveis de manejo e que se mantinham minimamente organizados ao redor de uma instituição que lhes garantia um canal de comercialização. Vários projetos elaborados como parte da disciplina foram executados nos estabelecimentos desses agricultures.

Ao mesmo tempo, a colaboração com profissionais de centros de pesquisa da EMBRAPA, da ESALQ  e do IAC ramificava-se em projetos de agroecologia em áreas de assentamentos de trabalhadores rurais sem terra, pequenos agricultures da região de Campinas, São Roque, Cotia, Vargem Grande Paulista  e outras regiões distantes, como Pontal do Paranapanema.


Organização do primeiro Workshop em Agroecologia no Brasil

Em novembro de 1999, com o auxílio da FAPESP, realizamos o Primeiro Workshop sobre Agroecologia e Desenvolvimento Rural Sustentável no Brasil.  Esse workshop contou com a participação do Dr. Miguel Altieri e Dra. Clara Nicholls e de vários pesquisadores da Unicamp e de outras Universidades brasileiras, trabalhando com pesquisa e ensino nas áreas de ecologia aplicada, agricultura ou áreas correlatas. Este workshop representou o primeiro grande encontro de profissionais, educadores e pesquisadores interessados em agroecologia no Brasil.  Em função desse workshop. estudantes do curso de Biologia da Unicamp solicitaram que uma disciplina de agroecologia fosse também criada para o curso de graduação, como disciplina optativa.


Criação da disciplina de Agroecologia para o curso de graduação em Biologia

No ano 2000 submeti a proposta da criação da disciplina “Agroecologia e Desenvolvimento Rural Sustentável”, junto ao Instituto de Biologia que foi aceita  em 2001 para ser oferecida a partir de 2003.

A disciplina de agroecologia em nível de graduação tem recebido estudantes da Unicamp e de outras instituições e conta com a colaboração de outros docentes do IB, da FEA, do IE e de instituições como a ESALQ e a EMBRAPA, além de grupos de agricultores da região.

O consórcio CAPES/FIPSE de intercâmbio de estudantes de agroecologia

Durante o período de minha licença sabática em 2001, juntamente com o Professor Paulo Lovato da Universidade Federal de Santa Catarina, Professor Miguel Altieri, da Universidade da California, Berkeley e Professor Charles Francis da Universidade de Nebraska, Lincoln, submeti um projeto para intercâmbio de estudantes de graduação, juntro ao consórcio CAPES/FIPSE ( um acordo firmado entre o governo brasileiro e americano para formação de estudantes em nível de graduação). O projeto foi aprovado e considero a criação concomitante da disciplina de agroecologia para graduação e a abertura de oportunidade de intercâmbio para os estudantes mais interessados na área de agroecologia, uma das minhas grandes realizações.  O consórcio subsidiou a ida de 10 estudantes da Unicamp para Berkeley e Lincoln e a vinda de estudantes americanos para a Unicamp e para a UFSC. 
Essa experiência permitiu transcender vários limites do ensino disciplinar, fomentando a convivência e a troca de experiência de docentes e estudantes de culturas e realidades diferentes, mas interessados em aprender e utilizar os conhecimentos de ecologia para analisar criticamente as implicações e repensar o modelo agropecuário atual. Os relatórios dos estudantes e as avaliações feitas por docentes envolvidos no programa demonstram a experiência ímpar que esse intercâmbio representou para a formação humana e profissional dos estudantes.

Agroecologia no IB depois de 2005

Quando me aposentei em 2005, transferi a responsabilidade das disciplinas de agroecologia e do consórcio para o professor Mohamed Habib, que já vinha me auxiliando especialmente nas relações internacionais do consórcio.
O consórcio terminou em 2006, mas o planejamento e a administração das disciplinas de agroecologia para a graduação e pos-graduação, dentro da mesma concepção original demandam grande dedicação; tanto do docente coordenador (Prof. Mohamed) como dos docentes colaboradores; em especial da Dra. Giovanna Garcia, que também esta vinculada ao Instituto de Biologia, e tem sido de importância vital para o estabelecimento e manutenção da área de Agroecologia no IB. Agradeço, em especial ao Professor Mohamed e a Dra Giovanna, por manterem viva  no IB uma área na qual plantei as minhas sementes e que acredito continuarão a dar bons frutos.

Maria Alice Garcia
Larkspur, CA.
27 de novembro de 2010

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